18 de maio de 2009

Blogagem coletiva: “em defesa da infância”


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A partir do Bibliotequices e afins, da Roseli Venancio Pedroso, cheguei ao Blog Diga Não À Erotização Infantil  que …
convida todos os blogs e sites amigos da criança a participarem da segunda blogagem coletiva “Em Defesa da Infância”, dias 18 e 25 de maio de 2009.
Dia 18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Foi instituído pela Lei 9.970. A idéia surgiu em 1998 quando cerca de 80 entidades públicas e privadas, reuniram-se na Bahia para o 1º Encontro do Ecpat no Brasil. Organizado pelo CEDECA/BA, representante oficial da organização internacional que luta pelo fim da exploração sexual e comercial de crianças, pornografia e tráfico para fins sexuais, surgida na Tailândia, o evento reuniu entidades de todo o país. Foi nesse encontro que surgiu a idéia de criação de um Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infanto-Juvenil.
Foi escolhido o 18 de maio em homenagem à menina Araceli. Sequestrada em 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Sanches, então com oito anos, foi drogada, espancada, estuprada e morta por membros de uma tradicional família capixaba. Muita gente acompanhou o desenrolar do caso, desde o momento em que Araceli entrou no carro dos assassinos até o aparecimento de seu corpo, desfigurado pelo ácido, em uma movimentada rua da cidade de Vitória. Poucos, entretanto, foram capazes de denunciar o acontecido. O silêncio da sociedade capixaba acabaria por decretar a impunidade dos criminosos.

Imediatamente, me  lembrei do conto De olhinho fechado, de Dalton Trevisan. Essa história  já fez parte de minhas aulas, justamente para refletirmos sobre as relações de poder nas famílias;  pois, como nos ensina Carlos Alberto Faraco,
a ficção transpõe a realidade para o plano do imaginado (para o plano do possível). Desse modo, acaba funcionando como uma espécie de espelho onde vemos refletidos nosso mundo e nossa vida. Ver o mundo e nós mesmos pelas lentes da ficção nos deleita, mas também amplia nossa capacidade de percepção da realidade e de dar sentidos ao mundo e a nós mesmos.
     O conto*:     
No sábado, com dor de cabeça, não fui para o emprego. Fiquei deitada quietinha no quarto escuro. A minha filha de cinco anos chegou da escola e entrou no quarto. Sentou-se no canto da cama: Mãe, eu tenho uma coisa pra te contar. Pela voz chorosa e trêmula, senti logo um aperto no coração.

Sou viúva. Tinha um namorado, João, que passava os fins de semana comigo. No sábado, depois do almoço, eu saía para o trabalho. Deixava-o cuidando da menina.

Daí ela contou que o João sentava-se no sofá e ligava a tevê. Punha-a no colo e ficava passando as mãos pelo seu corpo. Primeiro sobre a roupa e depois por baixo. O tempo todo gemia e falava bobagem.

Mandava que tirasse o vestidinho e se deitasse no sofá. Olhava-a de longe e vinha aos poucos se chegando. Beijava e babava no seu rosto. Acariciando e lambendo o corpo, baixava-lhe a calcinha.

Para não apanhar – Se você não deixa, eu te rasgo todinha! e Não grite, que eu te mato! –, a coitadinha fechava os olhos e chorava. Sentia alguma coisa no meio das pernas, mas não tinha coragem de ver o que era.

 O João dizia que estava muito calor e queria tomar banho. Entrava com ela debaixo do chuveiro e a esfregava devagarinho.Depois a vez dela, o que não era fácil, de olhinho meio fechado.

Isso antes do Papai Noel. Ai, sim, tantos meses… Ele jurou que matava direitinho as duas, se a guria me contasse. Com a faca de ponta ali na gaveta da cozinha.
O que ela podia? Uma criança, cinco aninhos, já pensou? Só obedecer e chorar. E sentia as lágrimas quentes que rolavam sob as pálpebras descidas.

Só agora, que briguei com ele e não vem mais aqui, a pobrinha achou coragem de me dizer tudo. Bem, ela pedia todo sábado que a professora a deixasse ficar na escola, mas não era atendida. 
 
Daí perguntei por que nunca ela gritou para chamar a vizinha. Ele podia até acabar comigo, respondeu. E eu ia deixar que matasse a minha mãezinha?
Precisa dizer mais??

*** *** *** *** *** *** ***

* De olhinho fechado está no livro Capitu sou eu, escrito por Dalton Trevisan, publicado em 2003, pela editora Record.

9 comentários:

Clarissa Oliveira disse...

Não precisa dizer mais nada... o conto já diz tudo!
Quantas crianças sofrem caladas como esta, com medo e solidão!
É repugnante...
Vamos prestar atenção em nossas crianças, conversar muito, evitar deixá-las sozinhas com outro homem e se soubermos ou desconfiarmos de algum caso de abuso, disque 100 para denunciar.
Beijos...

Fatima Cristina disse...

Oi Suely!
É triste, mas vive acontecendo em cada esquina...
Também me lembro deste caso da menina Araceli que minha mãe comentava sempre de exemplo, quando não me deixava sair e voltar sózinha...
Até quando vamos ouvir histórias como essas?
Bjs,
Fatima

Fatima Cristina disse...

Suely,
Escrevi sobre "uma viagem num mundo de blogs..."
veja lá.

Abs, Fatima

Marli disse...

Suely!

É muito triste. Pior, casos como o do conto acontecem bem mais perto do que se pensa. Nunca é demais prestarmos atenção ás crianças, porque o medo de falar pode encobrir muitos crimes assim. Abraço!

Marise von disse...

Professora Suely,

Tem um prêmio no meu blog pra você,
em reconhecimento do seu trabalho.

Abraço,

Marise.

EVELIZE SALGADO disse...

Tem sessão de terapia literária n'A MELHOR ALTERNATIVA.
Te espero!!!!

Geanina Codita disse...

la belleza y la sensibilidad de hacer este blog muy interesante. Días senine y la tranquilidad que desea.
http://translate.google.com/translate?js=n&prev=_t&hl=ro&ie=UTF-8&u=www.geaninacodita.blogspot.com&sl=ro&tl=es&history_state0=

Luma disse...

Que horror! Mas é o que mais tem! Pessoas próximas se aproveitando da inocencia!!

Suely, desculpe a mensagem pronta! Passei para avisar que acrescentei seu link à lista de participantes da blogagem coletiva "Em defesa da infância" e quando puder, acesse a lista para saber o que outros blogueiros estão repercutindo. Posteriormente essa lista estará também disponivel também no blogue "Diga não a erotização infantil". Beijus

Taiany Oliveira disse...

Ai, Suely, que bom poder não só ouvir o conto, mas lê-lo. Não o encontrei na "net" e o livro só sob encomenda agora... Mas esse conto arrepia, emociona e nos faz imaginar quantas são as criancinhas que sofrem caladas tantas tristezas sem que ninguém preste atenção. Me fez ver que se tem muita aprendizagem pela frente, já que em situações como essa o pedido de socorro é muito sutil!
Bjo!