14 de dezembro de 2010

Aulas em escola da Fase

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(capa do livro de poemas, criado pelos alunos em 2002)

 

     Em 2000, fiz concurso para a rede estadual, passei com uma boa classificação, o que me permitiu escolher onde trabalhar.

    No turno da tarde, optei, puro idealismo, pela escola recém implantada na Fase.

     Foram quatro anos de muita aprendizagem.

     O mundo que a gente só conhece pela televisão e pelo jornal me desafiava todos os dias.

     As turmas eram de, no máximo, dez adolescentes. Acostumada com trinta, trinta e cinco alunos em cada sala de aula, pensava que seria muito fácil.

     No primeiro dia, as grades se fechando às minhas costas me perturbaram, não o suficiente para me fazer desistir.

     Alguns cuidados: não levar nada para a sala de aula além dos dez lápis, das dez canetas, das dez borrachas e os dez cadernos se tornaram rotina. Qualquer objeto é um estoque (arma) em potencial.

     A cada encontro, a mesma resistência: “Tô legal de aula, dona!” E  se negavam a realizar qualquer atividade…

     Na concepção desses jovens, a obrigação de frequentar a escola era humilhante. O sonho deles era estar na Modulada (penitenciária estadual), pois estudariam se quisessem, não por imposição do Estado.

    Nada disso me intimidava, preparava as aulas com dedicação, ouvia cada história atentamente e, aos poucos, fui pegando o jeito de me relacionar com os meninos.

     E uma ponte  se criou entre nós a partir da literatura –  que eu apresentei para eles - e do rap – que eles me apresentaram!

     Líamos muito: poemas de amor, os preferidos! Os guris copiavam os versos nos cadernos, se apropriavam de Drummond, de Vinícius, de Camões… Certa vez, um dos livros voltou mordido; literalmente, devoravam poesia! Sem falar nas folhas, volta e meia, arrancadas e nas obras que sumiam entre os pertences nos dormitórios.

     E ouvíamos rap: Racionais,   Rappin Hood, Ferréz…

    Então, começaram a escrever poemas! e raps! que se transformaram num livro com direito à sessão de autógrafos na feira  da cidade!

     Por que lembrei de tudo isso hoje? Ao ler uma entrevista do futuro secretário da educação no governo Tarso Genro, José Clóvis de Azevedo, em que refere

Muitas crianças não confiam na escola, outras nem sabem no que a escola pode ajudá-las. Não há, na casa delas, qualquer tipo de debate sobre o que é a escola, sobre a importância de educar. Além disso, costumamos avaliar as crianças pelo seu desempenho na matemática ou português. E uma pessoa não é só isso, uma pessoa é um conjunto de sensibilidades dos mais variados tipos. É sensibilidade linguística, lógico-matemática, histórico-social, artística…

     Ali, naquela escola da Fase,  além de curtir rap, comecei a entender-vivenciar o que lia na Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire,

Como educador preciso de ir “lendo” cada vez melhor a leitura do mundo que os grupos populares com quem trabalho fazem de seu contexto imediato e do maior de que o seu é parte. O que quero dizer é o seguinte: não posso de maneira alguma, nas minhas relações político-pedagógicas com os grupos populares, desconsiderar seu saber de experiência feito, sua própria presença no mundo. E isso vem explicitado ou sugerido ou escondido no que chamo “leitura do mundo” que precede sempre a “leitura da palavra.

     Penso que foi um tempo de transformações nas minhas práticas!

6 comentários:

Alcir Martins disse...

Olhar essa capa chegou a dar saudade!

Laura Danielle Meyer Aguirre disse...

Aah q lindo o que escrevestes su! (: Fiquei curiosa para ler o livro! ^^ bjs!

Suely Aymone disse...

Laura!

Teu comentário me fez voltar a este texto e às minhas vivências na Fase!

Um tempo de muita aprendizagem... de muitos desafios...

Acho que é assim o magistério: um construir diário de relações entre pessoas e mundos, entre conteúdos e pessoas, entre...

O livro, te alcanço amanhã!

Beijos!

Laura Danielle Meyer Aguirre disse...

Livro lindo, me encantei com cada poema, cada rima, cada sentimento colocado ali. Vemos que as pessoas, todas sem excessões tem sentimentos, podem se arrepender, sonham com uma vida melhor. Me emocionei ao imaginar o quanto tu deve ter sido importante para eles! (= Tomara que ao sair de lá, tenham se tornado pessoas melhores, quevalorizam a família e todas as pessoas ao seu lado. Parabéns Suely!

jolzeide disse...

Su adorei o te trabalho!!!
Parabéns!!! Um abração

Rocio Rodi disse...

Querida Suely!

Adorei conhecer essa história maravilhosa, só faz aumentar a admiração que tenho por ti!

Imagino o como esses novos leitores te respeitam e te agradecem por dar a oportunidade a eles de ver o mundo de outro modo, e bem mais legal!

Abraços querida!