25 de agosto de 2012

Tomás: leitura e atividades de leitura na escola


Consigo ler os textos do Tomás - meu filho,  treze anos - como leitora. Quer dizer, sem entrar no modo #maecoruja ou #maeprofessoradeportugues!

E o jeito despojado de dizer, enfrentando o papel ou a tela em branco com ousadia, sempre me agradou. Ele consegue imprimir um tom autoral, sem pudor de usar interjeições, interrogações, exclamações...

Frequenta a mesma escola desde a primeira série e percebo que, conforme avança a escolaridade, a quantidade de textos solicitados diminui.

E como ele não é, assim, um inspirado escritor; em geral, prefere as animações em stop motion, escreve somente para cumprir as tarefas escolares.

Numa delas - escreve um texto dissertativo sobre a importância da leitura na tua vida -, o Tomás me surpreendeu com o que segue.

Ah, vale dizer que, na época, andava às voltas com  "Percy Jackson e os olimpianos - a maldição doTitã", de Rick Riordan, que vinha lendo com entusiamo até o dia em que foi marcada a data para a prova de leitura: Eu não vou aumentar meu ritmo de leitura só para fazer prova! Quero ler devagar pra curtir! Vou ler o resumo na internet! Reclamou indignado.

O texto da tarefa:
Sempre gostei de ler. Comecei com aqueles gibis da Turma da Mônica, era fascinado pelos planos mirabolantes do Cebolinha, pela fome insaciável da Magali e pela raiva da Mônica.

O meu gosto por livros e gibis aumentou, quando minha mãe me apresentou O Menino Maluquinho.

Esse foi um dos livros mais importantes para mim, pois me identificava com Maluquinho e me divertia com suas histórias.

Depois, comecei a comprar a Revista Recreio. Simplesmente adorava, não só por ensinar coisas interessantes, mas por que fazia isso de um jeito muito legal.

Mais tarde, vieram os  livros maiores e os que as professoras indicavam. Para ser sincero, se tem uma coisa que eu não gostava (e ainda não gosto!) era fazer um resumo do livro (na escola). Isso sempre tirava o prazer e o gosto da leitura, pois acabava se tornando uma obrigação.

De qualquer forma, os livros são muito importantes na minha vida, com eles conheço as mais fantásticas histórias, me divirto com os personagens mais loucos e isso aumenta minha imaginação.
Professores de língua  e de literatura, esse texto nos faz a refletir sobre nossas práticas?


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A professora Fátima Franco  faz indicações muito bacanas e nos provoca no texto Leitura: prazer ou chateação? Vamos espichar a conversa por lá também?

Uma das indicações da Fátima é o texto Formando não-leitores, de Luis Eduardo Matta, imperdível, também!

19 comentários:

Tati Martins disse...

Com certeza, Suely! Esta redação é ótima para refletirmos. Sabe o que criei neste bimestre, para meus alunos do 6o ano? Eles podiam escolher o livro que quisessem ler, desde que fosse de um autor brasileiro e apropriado para a idade deles. Indiquei alguns em sala, mas eles tinham total liberdade para escolher. Ao final, porém, teriam de "Vender o seu peixe", isto é, fazer uma espécie de propaganda, de 30 segundos a 1 minuto, para apresentar o livro e me convencer de que era tão bom que eu tinha de ler. Alguns poucos entraram foram criativos, mas a maioria ainda fica presa à estrutura tradicional e conservadora de avalisção. É impressionante como fica difícil também quebrar isso, quando todo o resto da escola é assim. Bjs!

Andréa Motta disse...

O Tomás está certíssimo: ler um livro só pra fazer prova é chatíssimo! E sob o ponto de vista docente, nem sei se é tão produtivo assim. Eu nunca elabora prova a partir de leitura de livro; acho que há outras coisas mais interessantes para fazer depois da leitura de um livro. Os alunos perguntam: "Quando será a prova do livro?". Eu respondo sem o menor pudor: "Não será!"

Lilian disse...

oi Suely, que gostoso o texto do Tomás, é bacana ver como nossos filhos evoluem bem no domínio da linguagem escrita, mesmo que não seja a sua maior preferência. É um fenômeno curioso essa diminuição da demanda, à medida em que os alunos amadurecem e poderiam produzir textos ainda mais qualificados que os seus primeiros. Algo para nós, educadores do Ensino Médio, ficarmos bem atentos. Um, dois e já, preciso por a meninada para escrever ainda mais... abços

Marli Fiorentin disse...

Suely!
Que saudade me deu dos alunos maiores ao ler o texto do Tomás! `Tudo o que um professor de português pode desejar do aluno é que este se torne um leitor pelo prazer de ler. E se para isso é preciso abolir avaliações chatas e desistimulantes que seja! Tem outras formas legais de socializar a leitura e penso que o professor deve dar a liberdade de escolha ao aluno. BJ!

Suely Aymone disse...

Oi, Tati!

Sim, fica muito difícil propor práticas diferentes; as escolas são muuuito conservadoras... e os alunos e as famílias acabam aderindo e exigindo a "tradição"!
Se a gente faz um pouquinho diferente tem que se explicar a toda hora... tem que provar que há outras possibilidades, mais interessantes, mas criativas, menos repetitivas e que nos põem em contato com a língua em seus usos...
Essa tua ideia de vender a obra lida envolve tantas habilidades que os pais e os alunos nem sonham... ou não querem, pois exige compromisso, autoria...
O mais fácil é seguir fazendo mais do mesmo...
Só se não forem nossos alunos, não é? ;)
Bjs

Suely Aymone disse...

Oi, Andréa!

Concordo contigo e com o Tomás e, talvez, ele "sofra" um pouco as influências das conversas em família sobre escola, metodologias e tals.

Penso que devemos ler obras literárias junto com os alunos, descobrindo com eles os possíveis sentidos...

Procuro começar as aulas com um texto literário pelo qual esteja, um poema, um conto, um trecho de um romance... o critério para a escolha é o meu encantamento... e, em seguida, os alunos começam a trazer suas leituras... a paixão pela literatura contamina...

Bjs

Suely Aymone disse...

Oi, Lilian!

Bah, no ensino médio nem se fala... pelo menos nas escolas em que circulo, não vejo muito movimento de leitura e de produção textual...

Beijos!

Suely Aymone disse...

Oi, Marli!

Sim, ninguém melhor do que tu para falar em outras formas de socializar a leitura...

Só que, infelizmente, nem todos os professores de português têm compromisso com a formação de leitores... há os que adoram a classificação gramatical apenas...

Beijos!

Nelza Jaqueline disse...

Puxa!!! O texto do Thomás provoca reflexão e inspiração... ótimo! E a prática da Tatiane Martins também é inspiradora, vou adaptar a minha realidade de 4º ano!!! Maravilha!

Grande beijo Suely!

aprendizagemdigital disse...

Grande Tomás!! É uma pena que ainda temos muitos professores que não valorizam e entendem os anseios de alunos como ele. A escola tradicional sempre teima em transformar a leitura em obrigação e isso é desastroso para os jovens.

Fátima Franco disse...

oi,Suely:
por favor, peça á professora de seu filho para dar um retorno sobre o texto do Tomás.Quem sabe a escola acorda, né?
Parabéns pro Tomás!
beijos

cybelemeyer disse...

Olá Suely e Tomas,

Que maravilha a possibilidade de se poder saber o que pensa o aluno sobre determinadas atividades, e que maravilha o Tomás ter a segurança de manifestar sua opinião.
Este presta atenção deve ser encarado como um sinalizador pelo professor.

Em relação a atividade(resumo) ter que ser feita através de uma determinada modalidade é que, a meu ver é a pedra no sapato, pois deveria ser aberta para que os que tivessem facilidade na escrita o fizessem por escrito, os que se sentissem mais à vontade para oralizar também assim o deveriam fazer, e assim outras possibilidades.

Tenho três filhos hoje adultos, porém quando eram pequenos sempre escolhemos um livro para lermos juntos, cada um no seu ritmo, e era uma delícia (normalmente quando todos estávamos sentados à mesa para as refeições) comentarmos sobre o ponto que cada um estava na leitura e qual os momentos mais marcantes na história. Esta troca entre nós fazia com que todos nós tivéssemos o olhar para diferentes pontos que se lêssemos sem comentar talvez passasse despercebido.
Esta partilha é fundamental para o crescimento de todos e propor que o resumo seja feito somente por escrito priva que todos os alunos se enriqueçam com a interpretação de cada um
bj

Taiany disse...

Oi, Su! O Tomás é filho de peixe, não é mesmo? Menino inteligente que sabe mesmo expor o pensamento em um texto! Geração que lê é assim... Parabéns pelo filho!!!

Agora, como tua aluna, tive a oportunidade enquanto participei do curso normal, e posso falar no teu método de passar o gosto pela leitura aos alunos... Nenhuma, das tantas professoras que tive, inclusive na faculdade de Letras, foi tão apaixonada e seduziu tanto o meu gosto pela leitura como o fizestes... Quem dera todas as professoras de literatura e português fossem assim tão ousadas em suas aulas. Não haveria monotonia, teria maior interesse e gosto pelos livros! Disso, tenho certeza!!! #ficaadica para as demais... hehehe... Beijo!

Suely Aymone disse...

Oi, Jaque!

Com certeza teus alunos vão adorar "vender" as leituras para os colegas, como sugeriu a Tati!

Pelo que tenho observado, as professoras, que atuam nos anos iniciais, em geral, realizam um trabalho muito legal na formação dos leitores... envolvendo criatividade, ludicidade...

O "problema" vem depois... parece que nos anos finais do fundamental e no médio, há uma preocupação com conteúdos e mais conteúdos (que jamais serão "vencidos" um ano letivo!) e se deixa de lado a leitura e a escrita... aí vem o "assassinato" dos leitores...

Sim, é trágico, mesmo!

Beijos!

Suely Aymone disse...

Oi, Jenny!

Acabo de ler no artigo "Formando não-leitores", de Luis Eduardo matta, indicado pela Fátima Franco:

"ler é um instrumento para se aprender e não o aprendizado em si. Ou seja, ensinar a ler é muito mais importante do que ensinar o que ler."

Deixo aqui o link se quiseres ler mais, vale a pena:

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1244&titulo=Formando_Nao-Leitores

Beijos!

Suely Aymone disse...

Oi, Fátima!

Vamos esperar pelo retorno do texto...

De qualquer forma, o fato de estarmos nesta roda de conversa já faz um bom movimento... que, talvez, chegue na escola...

Adorei a referência ao texto do Tomás e as provocações no teu blog!

Vou inserir o link do teu texto aqui!

Beijos!

Suely Aymone disse...

Oi, Cybele!

A gente tem o privilégio de partilhar leitura com nossos filhos...

Mas, a maioria dos nossos alunos só tem contato com literatura na escola... por isso, tens razão, somos fundamentais na formação de leitores... todos nós que estamos nas escolas, não importa a área em que atuamos...

Beijos!

Suely Aymone disse...

Oi, Taiany!

Tu sabes da minha paixão pela literatura... mas, há também muito esforço, muito estudo e, principalmente, muita leitura...

Além de disso, tu és muito generosa!

Nossos encontros no Clube de Leitura, sábado à tarde, deixando marido, filhos, casa... para ler e falar sobre literatura... é um bom movimento... que, aos poucos, vamos ampliando... o Luizinho também é um "peixinho", né?!!

Beijos e obrigada pelo teu reconhecimento, pelo teu carinho!

Vanessa Gonçalves Vieira disse...

Que bacana Suely. Muito bacana sua iniciativa. Adorei ler o texto do Tomás. E que fantástica essa reflexão sobre a leitura. Eu também não gostava de fazer esses resumos. A leitura vai se perdendo...

Parabéns pelo post. Adorei!