22 de fevereiro de 2010

RPG: uma aventura urbana



     Esta sinopse de roteiro de uma aventura de RPG desenvolvi em 2009, na disciplina Introdução às narrativas e roteiros interativos para educação, do Curso de Especialização Tecnologias em Educação.

     Talvez algum (a) leitor (a) do Ufa! se interesse e use em sala de aula…

     Que fique claro: é uma tentativa apenas…

     A proposta está aqui!

     Eis o roteiro:
Duas questões me afligem como professora de língua portuguesa e de literatura no ensino médio: a formação do leitor e a construção da autoria. Muitos jovens chegam à etapa final da educação básica sem ter desenvolvido essas habilidades!

Por que não usar RPG para alcançar esses objetivos? Assim aliaríamos o lúdico ao pedagógico como nos ensina Carlos Klimick, no texto Sobre projetos lúdico-pedagógicos.

Comecei a pesquisar sobre o tema e encontrei uma proposta muito interessante apresentada pelo mesmo Klimick e Eliane Bettocchi: Escrita e leitura através de narrativas e livros interativos.

Atrevo-me a usá-la como inspiração para elaborar a sinopse de roteiro de uma aventura, para uma turma de 1º ano do ensino médio.

Parto de um conto – gênero de curta extensão, de fácil leitura.

De um tema: (ausência de) solidariedade entre pessoas que partilham espaços sociais.

De um autor: Dalton Trevisan – um dos mestres nesse gênero, com temática urbana, contemporânea, pouco lido nas escolas.

De uma obra: Uma vela para Dario.

Essa história revela o drama de um homem, numa cidade grande, provavelmente Curitiba – cenário predileto do autor -, que, ao sofrer um mal súbito, cai na calçada e fica à mercê das pessoas que transitam pelo lugar. Umas lhe observam curiosas, outras indiferentes, outras o saqueiam... até que morre...

Duração do jogo: em torno de sete aulas...

O jogo: o mestre – o professor – propõe o desafio:

Vamos construir juntos uma história! Ela começa assim:

“Numa rua movimentada de uma cidade de porte médio, do interior do Rio Grande do Sul, na época das festas...
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.”

O que aconteceu com esse homem, ali naquela rua, nas três horas que se seguiram a esse fato?

O mestre orienta os jogadores – os alunos, em duplas – a criar uma personagem que, em algum momento, vai interagir nesse cenário com Dario. As duplas, devem escolher (ou o mestre pode sorteá-las para que não haja coincidências) entre as seguintes: senhor gordo, rapaz de bigode, moradora de uma das casas da rua (1), moradora de uma das casas da rua (2), criança de pijama moradora em uma das casas da rua (1), criança de pijama moradora em uma das casas da rua (2), velhinha de cabeça grisalha, taxista, alguém, um terceiro, o guarda, curioso (1), curioso (2), senhor piedoso, menino de cor e descalço.

Em seguida, os jogadores elaboram, por escrito, a biografia ou a autobiografia da personagem que vão representar.

Na aula seguinte, os alunos trazem para o jogo um objeto, um adereço, uma música, um poema que identifique a personagem, a fim de apresentá-la ao mestre a aos outros jogadores.

Agora é o momento de criar, coletivamente, um desenho do cenário e expô-lo num cartaz, ou, quem sabe, construir uma maquete. O mestre determina alguns pontos importantes: esquina, parede de uma casa, calçada, pedra, várias residências, portas, janelas, ponto de táxi na esquina, farmácia no fim da outra rua, peixaria, café...

Também, orienta que as personagens, considerando os dados biográficos, escolham seus lugares (fixos ou em movimento) na cena.

Início do jogo: tendo os jogadores dispostos ao redor do cenário, o mestre relê a situação inicial, apresenta o texto “solitário/solidário”, de Ronaldo Azeredo – um enigma que deverá ser desvendado de acordo com as possíveis leituras que o poema permite -,
solitário solidário soli ário
solitário solitário soli ário
solidário solitário soli ário
solidário solidário soli ário
e sorteia uma personagem para começar.

A cada solução criada pelos jogadores, o mestre propõe novas situações, de forma que todas as personagens atinjam o objetivo de se relacionar com Dario.

Situações que vão ocorrer durante o jogo:

· As personagens se relacionam com Dario e entre si: falam, observam, espiam, dão palpites, tomam café, conversam, correm...
· Alguns carregam Dario até o táxi.
· Alguém lembra da farmácia.
· Dario é largado na porta da peixaria.
· As pessoas, que vieram apreciar o incidente, tomam café e bebem aproveitando a noite.
· Um terceiro examina os documentos de Dario.
· A polícia aparece.
· Surge um senhor piedoso.
· Um menino descalço entra em cena.
· As pessoas fecham as janelas e vão dormir.
· Algo acontece com os pertences de Dario: guarda-chuva, cachimbo, sapatos, alfinete de pérola da gravata, relógio, documentos, aliança...

O jogo termina depois que todas as personagens, durante as três horas que se seguiram ao episódio inicial, interagiram de alguma forma com Dario e interferiram no destino desse homem.

Então, o debate: o que revelam as relações das personagens? De que forma a leitura do poema de Ronaldo Azeredo auxiliou no planejamento das ações das personagens? Na sociedade, temos exemplos reais das situações que criamos no jogo? É possível construir um mundo menos individualista, mais solidário? Como?

Espero que, após a participação nessa aventura urbana, os alunos tenham curiosidade de ler este e outros textos de Dalton Trevisan, como também contos de outros autores contemporâneos.

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Referências bibliográficas:

· BETTOCCHI, Eliane e KLIMICK, Carlos. Escrita e leitura através de narrativas e livros interativos. Disponível em: http://www.historias.interativas.nom.br/incorporais/pdfs/cpareia.pdf. Acesso em: 15/12/09.

· AZEREDO, Ronaldo. solitário/solidário. In: SIMON, Iumna Maria e DANTAS, Vinicius. Poesia concreta. São Paulo, Abril Educação: 1982.

3 comentários:

Fatima Cristina disse...

Suely!

Há quanto tempo não visitava o UFA...
Me surpreendi com todas as novidades e seus novos blogs!
Seu trabalho é um exemplo para muitos profissionais de sua área!
PARABÉNS!!!!

Beijos,
Fatima

Cecy disse...

Suely, sua proposta me inspirou: vou fazer um trabalho usando RPG e a vida no feudo. Coloquei o roteiro no meu blog, se puder me diz o que achou, ando buscando dicas.

clair isabel disse...

Li todo teu blog, não só por trabalhar com tecnologias, mas por achar um importante instrumento que temos para melhoria da educação, adorei!!!Parabéns!!!