8 de abril de 2010

“Capão pecado”: literatura & censura & escola

capao nova edição


     Juro, não sei o que é pior: a censura a uma obra literária, o afastamento de uma professora por permitir que @s alun@s lessem a obra (ou melhor, parte dela) ou a justificativa para o deslize: a professora, que “adotou” o livro, não o conhecia!

    Em 2009, a questão da vez, aqui no RS, era a obra de Will Eisner – mestre dos quadrinhos! (aqui encontras um texto sobre esse assunto!)

  Agora, na Bahia, é “Capão Pecado”, de Ferréz. Em comum, a leitura caolha de fragmentos descontextualizados… A escola burocratizando a arte!!!

   No ano passado, li este romance com alun@s do ensino médio: encontros cheio de sentidos… revelando, às vezes, repulsa, indignação; outras, admiração, identificação com/por uma ou outra personagem.

   Sem dúvida, as falas chamam a atenção – língua da periferia, cheia de gírias e expressões pouco comuns nos textos literários que circulam nos meios acadêmicos. Língua cheia de vida!!!!

   Aliás, penso que esse é um dos pontos fortes do texto de Ferréz: a vida de pessoas que o “centro” teima em fazer invisíveis. Ele
(…) expressa com realismo a dureza das relações entre povo e Estado, entre pobres e ricos, entre as precárias condições de vida nas favelas e a repressão policial. (Caros Amigos, outubro, 2009)
    Trabalhei quatro anos numa escola da Fase. Ali, com os adolescentes infratores (invisíveis!), aprendi a apreciar o rap (e o movimento hip-hop) – poesia que permitia a expressão das dores, dos amores, dos sonhos… , permitia que eles aparecessem - e ensinei os meninos a gostar de Drummond, Quintana, Tiago de Mello… a virarem escritores…

    Em seguida, cheguei a Ferréz: na Caros Amigos, no blog, na música, na literatura!

    Em 2007, na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, vi/ouvi Ferrez ao vivo: uma plateia de cinco mil pessoas encantada com a proposta do cara.

    Claro, ainda há o tom exótico ao referir a obra de Ferréz: voz da periferia e tal e coisa…

    Cá entre nós, literatura é literatura e ponto! Mas… como há a mania de classificar tudo - literatura infantil, de auto-ajuda, para adultos...

    Uma obra é uma obra, essas classificações de nada valem... O que importa é a forma como ela (a obra) se encontra com @ leitor(a): os possíveis sentidos que serão tecidos!

    É nesse encontro autor-obra-leitor(a) que a magia da literatura, realmente, acontece!

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7 comentários:

Sérgio Lima disse...

Opa Suely,

Não conhecia este livro... seu texto aguçou minha curiosidade :-)

A propósito, o blogue tá bonitão... o chato do rss é que perdemos a experiência de ver o jeitão pessoal de cada blogue.

abs

Alcir Martins disse...

oi, Su!
Saudades, hein...
Lembro das primeiras leituras do Ferréz...muito por causa do rap que depois foi levando para a Literartura dira marginal... e do "amanhecer esmeralda" que conheci pelas tuas mãos...
saber dessa polêmicaaumenta uma certa descrença nesta "instiuição" escola...é muita filhadaputice mesmo!
Mas ao mesmo tempo ainda dá um alento saber que tem umas "Annas" (autora do livro) e outras tantas que insitem em ousar...

nesses casos só nos resta esbravejar: QUE MERDA!

Alcir Martins disse...

*dira = dita

Suely Aymone disse...

Oi, Sérgio!

Vale ler essa obra!!

Literatura da boa mesmo!!!

Sempre que posso, vou atrás dos textos que não estão nos manuais de literatura...
Penso que, para a formação de leitores, esses textos são muito importantes... a gurizada se sente mais próxima... depois, a gente apresenta os autores avalizados pela academia...

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Nas férias, andei fuçando no blog e dei uma cara nova!!! Também gostei!!! :)

Abraços!!

Suely Aymone disse...

Oi, Dire!!

Saudades de montão!!

E a gurizada lê com muito gosto esses caras!!!

A proibição faz parte de um plano de formação de não-leitores!!! Não é?!!

Agora lembro das obras dos dois "Véios" que (re)leio - Rubem Fonseca e Dalton Trevisan - que não estão nos manuais e que a gurizada adora (e devora!).

Nos manuais, estão, apenas, as "permitidas"... e sempre as mesmas... parece que o Dalton Trevisan só escreveu "Uma vela para Dario" (um texto lindo, fundamental, mas há um vasto mundo bastante instigante escrito por ele)!!!

Tem uma aluna (e já têm outras na fila...) que está lendo "O seminarista", livro do ano passado do Rubem Fonseca.... imagina se os defensores da moral e dos bons costumes descobrem... me lincham...

Na última aula do ano passado, mostrei um vídeo do autor lendo um trecho do livro; depois, li outro trecho... Na primeira aula deste ano, a menina me pediu o livro emprestado...

Adoro isso!!

Beijos!!!

( BILIE Jr ) disse...

SABES O QUANTO GOSTO DESTE TIPO DE LITERATURA QUE FALA DA OPRESSÃO SOCIAL,Dá voz àqueles que nunca são ouvidos.E FERREZ É UMA HOMENAGEM A ZUMBI TAMBÉM,É PERFEITO,
VC SEMPRE PIONEIRA NAS POSTAGENS PARABÉNS

SAUDADES

Eloí Bocheco disse...

Capão pecado é um livro forte, impactante. Gostei demais!
Amanhecer Esmeralda, também de Ferrez, é um livro de uma delicadeza tocante.
Admiro muito este escritor e sua trajetória de vida.
Eloí