3 de abril de 2010

Sobre aulas de língua portuguesa…

era_uma_vez

Um dos motivos por que virei professora de língua portuguesa e de literatura foi a postura – criativa, inovadora – de uma professora – a Luíza - no curso de Comunicação Social, no início dos anos 80, na Unisinos. (Escrevi sobre a Luíza aqui!)

Esse “modelo” se grudou em mim e o persigo nesses mais de vinte anos de sala de aula!

Desde o ano passado, tenho a oportunidade de estar com alun@s do curso normal em nível médio, o que  possibilita  debates  interessantes no sentido de refletir sobre os “modelos” de aula de português que temos internalizados:

  • em primeiro lugar, @ alun@ precisa aprender a ler e a escrever... para, somente depois, ler e escrever na vida real??? ou dá para aprender-fazendo???
  • quais as concepções de linguagem que permeiam as práticas??? e o que essas escolhas implicam???

Observo  que crianças e  jovens têm experiências de leitura e de escrita  não são valorizadas na escola... tanto no início da escolarização (quando se insiste no “babebibobu”) quanto no ensino médio (ainda, há as leituras obrigatórias em que as obras são jogadas sem preparo algum – nesse tempo se matam leitores!! – e, ainda, há os “esquemas” para redação).

A língua é viva, é dinâmica, depende das relações entre os interlocutores... e a escola insiste em  mumificá-la...

Quando pergunto, aos(às) alun@s do ensino médio: quem sabe português???

A aula silencia...

A professora Denise Vilardo, no blog Jogando conversa fora,  faz um relato bastante emblemático (e triste!) dessas maneiras como a escola trata  o ensino de língua materna - dissociado da vida real, criando a ideia de que o estudo de língua se resume a regras e mais regras da língua padrão (?) e, portanto, é acessível, apenas,  para alguns iniciados… (aqui podes acessar todo o texto! excelente!)

 

Vivi uma experiência que exemplifica bem essa questão: fui chamada para dar aula particular para um aluno de 15 anos, que estava cursando, na época, a sétima série de um colégio da classe alta do Rio de Janeiro. Ele era redator-chefe do jornalzinho do colégio e estava, ironicamente, com notas péssimas em Língua Portuguesa. Ah, ele também tinha uma banda de rock, onde era baterista. No nosso primeiro encontro, pedi que ele me falasse um pouco de sua experiência de músico. Em seguida, pedi que escrevesse sobre esse fato. Imediatamente e, diga-se, com muita rapidez e fluência, escreveu um ótimo texto de duas páginas. Li tudo e propus que começássemos a analisar o primeiro período do seu texto. Ele me olhou, muito surpreso, sem entender exatamente o que eu pedia que fizesse, e comecei a explicar, dizendo que iríamos verificar, naquele parágrafo, quais elementos da estrutura sintática estavam presentes, tais como: sujeito, predicado, adjuntos, tipos de verbos etc. Ao que ele, absolutamente surpreendido, me perguntou: e quando eu escrevo tem isso?! Ou seja, para ele, o conteúdo da disciplina Língua Portuguesa não tinha a menor relação com o que ele falava ou escrevia. Isso é assustador! Não se tratava de um aluno desinformado, muito pelo contrário, tanto era atento ao mundo e competente na desenvoltura com a Língua, que escrevia regularmente no jornal do colégio. Mas, vivia massacrado pelas “orações subordinadas substantivas objetivas diretas”, que não faziam o menor sentido para ele.

Alguma coisa (muito!) está errada…

Já paraste para refletir sobre como são as aulas de língua portuguesa e de literatura nas escolas em que trabalhas e estudas??? Ou nas escola de teus (tuas) filh@s??? Estão focadas na formação de leitores e de produtores de textos?? Ou investem na criação de “especialistas” em gramática normativa??? O ensino de língua serve para libertar ou para aprisionar???

4 comentários:

Elaine dos Santos disse...

Oi, Suely! uma das coisas que mais me desesperavam, nos tempos em que trabalhava com o ensino médio, era entrar em sala de aula e ser tomada de assalto pelos alunos para explicar as famigeradas orações subordinadas, "perdia" tempo na aulas de literatura para tratar de um assunto absolutamente corriqueiro na vida deles, mas que se transformava em bicho de mil cabeças na aula de português...infelizmente, ainda temos gramatiqueiros de plantão...

abçs e feliz Páscoa.

Miriam disse...

Que texto hein! Muito bom, mas estou aqui para agradecer sua visita. Fiquei emocionada! Obrigada, Suely!

Suely Aymone disse...

Pois é, Elaine!!!

Esse enredo é muito conhecido: quando dava aula na EJA - ensino médio, uma aluna me trouxe umas folhas mimeografadas com umas 40 orações: tema de casa da filha, também no ensino médio da mesma escola, no turno da manhã: classificar as orações, dando nome, sobrenome... para todas - e, é claro, valia nota!!! Mãe e filha apavoradas...

As relações de sentido entre as orações, pouco importavam... o que valia era saber dizer: oração subordinada substantiva objetiva direta... E a professora, parece, tinha prazer em ensinar (?)isso...

Abraços!!!

Teresinha Bernardete Motter disse...

Suely, estava com saudades de ti, que bom que apareceste aqui, tb ando a mil, somente amanhã vou iniciar a aplicação da metodologia com as alunas, 2 turmas de egressas e uma turma de terceiro ano, atrazou muito esse ano.
Sobre as alunas interagirem acho ótimo, tb quando vi que tens didática da linguagem... uma professora que está com didática da linguagem quer trabalhar com as tecnologias amanhã falo com ela, penso que vocês poderiam fazer um trabalho juntas, é uma idéia. Te escrevo
obrigada pela visita e Feliz Páscoa.
bjs
Berna