23 de fevereiro de 2013

Escola = domesticação?


Me explico: estudos recentes no campo de antropologia/ciência do conhecimento mostram que fora da escola funciona um saber (não domesticado por conveniências de controle ou por babaquices didáticas) que surge das necessidades de troca de informação para que as coisas aconteçam (trecho do texto TIC e Educação: onde as coisas mudam?, do professor Jarbas Novelino).
Tinha acabado de ler  esse texto do professor Jarbas,   quando ouvi o chamado da Tatiane para a conversa: Será que nosso erro é tentar didatizar a internet?

Comecei a escrever nos comentários do Mulher é desdobrável. Eu sou., mas me estendi... então, resolvi puxar um fio da conversa pra cá! 

Lá vai...

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O exemplo dos gibis que o professor usou me fez lembrar uma situação que vivenciei, com as meninas da Cia. Era uma vez (mediadoras de leitura). 

Primeiro dia letivo de uma turma de 2° ano. 

Nós, entusiasmadas com a oportunidade de contar histórias, nossa paixão. As crianças amorosas, ao nosso redor, com o brilho nos olhos à espera. Antes, de começarmos, a professora da turma, em tom ameaçador: “Prestem bem atenção, porque depois vamos trabalhar essa história na aula e eu não vou contá-la novamente pra vocês.” 

Ouvi um “Aaaaaaaaah”! E uma das crianças me pergunta aflita: “Tia, tia, qual é o título da história, qual é o autor?” Até as questões elas já antecipavam... no segundo ano. 

Minhas alunas me olharam imediatamente... não é bem isso que a gente propõe quando partilha literatura... 

Realmente, os professores tendem a domesticar não só a internet!

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As questões da Tati:
  • Por que há um estranhamento entre o jovem enquanto usuário das mídias digitais em sua vida pessoal e como discente?
  • Quais são as dificuldades apontadas pelos estudantes na mudança de paradigmas da escola? Quais são as suas resistências?
  • Que representações os jovens têm do uso das mídias digitais na escola?

Tudo chute, certo? 

Acho que há estranhamento justamente por causa da forma como as mídias digitais entram na escola – como diz o professor Jarbas - domesticadas. Esse estranhamento não acontece, somente, com as mídias digitais; se dá, também, com a literatura (só pra ficar na área em que atuo): tantas vezes ouvi: "Professora, quando eu era pequena adorava ler historinhas; agora,  detesto ler!" Muitos jovens não leem literatura em função da maneira como as obras lhes são apresentadas: domesticadas.

A escola vai retirando de suas práticas, aos poucos, a ludicidade, a partilha, a criatividade... basta ver uma sala de educação infantil - mesas coletivas, almofadas, diversos materiais à disposição, livros, movimentação... 

E muitos de nós, professores e pais, consideramos essa etapa, apenas, como um tempo de brincar... A escola, aquela de verdade, começa no primeiro ano (ou, talvez, agora, com a nova estrutura de nove anos, no segundo): cada um na sua mesa, em fila, com seu material... 

Uma dificuldade fazer os pais entenderem que, embora o caderno do filho no terceiro ano, por exemplo, esteja sem muitas anotações, houve aula naquele dia, as crianças aprenderam mesmo sem ter copiado. 

Resumo: acho que os alunos (e os professores e os pais) resistem às mudanças, por causa desses modelos, que, além de arraigados, são “vendidos” como de sucesso. 

Nestes pagos, quando ouvimos: “Aquela escola é boa, bem puxada!”, significa que os alunos são submetidos ao ensino classificatório, baseado no copia e cola (do quadro, do livro, da web), na repetição, no individualismo, na nota da prova, na aprovação/reprovação...

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Por falar em modelos arraigados, uma das reflexões que perpassa as aulas do Ensino Médio Curso Normal: por que, quando assumem as turmas nos estágios, por exemplo, tendem a reproduzir o modelo de aula instrucionista que tanto repudiaram quando alunas? 

Por que foi esse o único modelo de aula que vivenciaram? porque é mais fácil e cômodo passar no quadro para as crianças copiar?  porque não há relação entre as teorias estudadas, ao longo do curso, e as práticas? ou...

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Me coloco no grupo de "educadores bem intencionados, mas ignorantes no campo das comunicações", em busca "usos mais eficazes das novas mídias" (professor Jarbas).

Algumas boas intenções  - jornal da escola,  blog do curso,  revista sobre literatura infantil -, experiências em que os alunos  exercem a autoria e, acho, contribuem, de certa forma, para uma  representação mais dialógica das mídias digitais. São  tentativas de fugir das "babaquices didáticas"! Só que muito didáticas! :P Afinal, uma das "minhas" disciplinas é didática da linguagem! ;)

De verdade, como as alunas são futuras professoras, pelo menos, gostaria que as ideias de colaboração e de autoria mediadas pela web fossem internalizadas a partir dessas práticas. 

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Sim, Tati, penso que nosso erro é didatizar, não só a internet!

Detalhe: acho que  estamos usando didatizar e domesticar como sinônimos de práticas repetitivas, em que o aluno fica, apenas, como recebedor, né?

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Pergunta honesta: Como inserir as mídias digitais nas práticas pedagógicas sem usá-las de forma didática?

Continuamos conversando...

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Atualização:

A Miriam puxou mais um fio: Um registo de conversa virtual.

Meu destaque:
Acredito mesmo que temos mais é que dar a maior força e apoio aos professores que se arriscam a começar a usar as TICs, mesmo que ainda não tenham chegado no que se considera ideal. Porque pelo menos estão buscando novas formas de ensinar!

3 comentários:

Tati Martins disse...

Minha amiga! Depois de tantos comentários lá no meu blog e tantos papos super bacanas, agora à 01h40 da manhã, só consigo pensar em uma letra de música que resume todo esse processo de "didatização" ou "domesticação" das práticas escolares (para ir muito além da internet, como você bem mencionou).

Aí vai um trecho, que, com certeza, você irá ler, se lembrando da interpretação de Elis Regina:

"(...)
Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...

(...)

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais..."

Acho que a resposta é esta: temos de nos desadestrar do que é intrínseco à nossa formação. Basta observarmos algumas crianças brincando de "professor e alunos" quando pequenos para perceber essa reprodução doentia.

Beijo grande! Vou copiar isto aqui lá nos meus comentários.

Suely Aymone disse...

Oi, Tati!

Adorei a trilha! cantei, sim! Mega desafinada, é claro!

Esses dias trouxe pra cá uma fala da Marli, em conversa com o Zé Roig, no fb: "Nada convence como o exemplo e nada resiste ao afeto."

No ano passado, rolou um debate muito bom numa turma do terceiro ano do curso normal: como poderíamos exigir/valorizar práticas transformadoras das estagiárias, se elas não percebiam isso na maioria das disciplinas do curso???
E não era apenas implicância com alguns professores... era um momento de reflexão, em que avaliavam as práticas dos professores sob a luz dos teóricos que estavam estudando.
Uma boa saia justa! ;)
Vamos conversando!
Beijos!

Marli Fiorentin disse...

Queridas!

Como é bom encontrar alguém que fale a mesma linguagem, que tem as mesmas angústias, os mesmos sonhos! Passo aqui correndo. Nem consegui preparar uma postagem para compartilhar tantos pensamentos nesse início de ano letivo, por falta de tempo. Mas rapidamente quero dizer como Fernando Pessoa lindamente poetizou,a todo professor:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

De resto, o afeto e o exemplo do professor serão a melhor metodologia. Sem receitas!

BJ!